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Em 2001, nosso grupo se sentia atado à necessidade de seguir o calendário de festas. E o dia das crianças sempre foi nosso prato principal do ano. É o nosso público mais numeroso, e há taaaaaaantos eventos beneficentes que precisam de um grupo de teatro que trabalhe gratuitamente, composto por voluntários adolescentes que vão pros bairros mais distantes num sábado de manhã… Éramos tão jovens e tão fascinados pelo “fazer teatro”, pra nós não tinha dificuldade nem preguiça.

Mas, eu dizia que íamos fazer uma peça no dia das crianças. E nosso coordenador, que também é nosso diretor e dramaturgo, o Paulo, escreveu uma peça chamadas “As Aventuras de Maria Xereta”.  A peça é ÓTIMA. Parece um filme da sessão da tarde de épocas melhores.

A peça gira em torno de três órfãs personagens centrais, que moram no “Orfanato Bom Jesus”, gerenciado por uma mulher muito braba e estranha. Elas fogem do orfanato para procurar os pais da Maria Xereta, que é protegida por uma fada meio maternal que diz que a mãe dela já morreu, mas o pai ainda está vivo e procura por ela. São assaltadas e perdem as mochilas, os tênias e até as meias. Mas, decidem seguir em frente procurando o endereço dos pais da Maria Xereta. Quando chegam, a casa está pegando fogo, e elas ficam sabendo que o viúvo que morava na casa havia viajado na véspera. Voltam para o orfanato meio tristes, mas no dia das crianças, tudo pode acontecer!

Tínhamos bastante gente no grupo (tempos de fartura), e dividimos o contingente em duas equipes. Havia um circuito de apresentações a realizar. Dois finais de semana, duas apresentações por dia; oito apresentações para cada equipe. 

Eu fiquei em uma equipe mais experiente. Amable fazia o papel da Maria Xereta, eu como a Júlia Sapeca e Larissinha como Ana Banana ( personagem elétrica que fala bobagens sem parar e é viciada em banana-nanica, favorita do público, sempre) ; a Dete como Fada/espírito da mãe da Xereta; o Seu Roberto como Dona Cinturão (hilário), bombeiro e pai da Xereta; e o Ives como ladrão. Quem ficou como maquiadora e sonoplasta foi a Lyvia, filha do Seu Roberto.  A Dete e o Seu Roberto eram os únicos adultos dignos desse nome.

Chegou o dia da primeira apresentação: foi no Abrigo Moacir Alves, uma entidade de apoio à crianças deficientes ou em risco social. Foi mágica, foi maravilhosa. Elas sentaram bem pertinho de nós; a Dete entrava jogando purpurina (uma fada tem que ter pó mágico, não é?) e elas esticavam as mãozinhas pra pegar. Delícia.

Fomos almoçar na casa da Dete, fazendo piadas com bananas, e as milhares de coisas que se pode fazer com banana. Bolo de banana, banana frita, purê de banana, pudim de banana, mingau de banana, sorvete de banana, pavê de banana, vitaminada, bananada… A Dete inventou um sanduíche maluco, que consistia em um pão cortado ao meio, recheado com uma banana INTEIRA. A criação culinária ganhou o adequado nome de X-Mico – e nós fizemos dez X-micos para levar de lanche na apresentação da tarde.

A apresentação da tarde foi no bairro do Zumbi (não lembro se I, II ou III). Era LONGE, e difícil de achar.  Era numa igreja católica, mas a atividade era organizada por um grupo ecumênico, que tinha evangélicos de várias denominações, católicos, espíritas, representantes de religiões de origem africana. Além disso, dezenas de voluntários não-religiosos. Lamento imensamente não saber o nome do projeto.

Quando chegamos, nos mostraram o palco. Nos desesperamos. O palco era bem alto, daquela madeira cheia de farpas. A céu aberto. E o espaço onde ficaria o público era…imenso! Um campo de futebol de várzea!

Perguntamos qual era a previsão de público. “Mais ou menos umas três mil crianças.” “TRÊS MIL PESSOAS?!” “Não, três mil CRIANÇAS. As mães vêm junto.”

Deu vontade de chorar. Seu Roberto, o Mestre dos Magos, foi quem nos botou em ordem: “Agora já viemos aqui, vamos fazer direito o que sabemos fazer.”

Foi uma loucura. A Maria Xereta começa a peça sozinha no palco. Nós, do camarim, ouvíamos a Amable gritando o texto como se pedisse socorro. A Júlia Sapeca era a segunda personagem em cena, e entrava correndo e fingindo um desmaio. Eu entrei em cena correndo e por um triz não desmaiei de verdade. Aquilo não era um público, era a população de Liechtenstein. Eu olhava, e não via o FIM do público. Nós íamos jogando o texto que sabíamos, sem muita esperança. 

 (Jogar o texto, no jargão do teatro, é falar o texto sem muita emoção, corrido, querendo acabar logo. O contrário de jogar o texto é saborear o texto.)

De repente, lá embaixo, no meio do público, vem a filha do Seu Roberto com um microfone na mão. Microfone com fio. O fio não chegava até nós. Ela ficou lá embaixo, com o braço esticado, durante 40 minutos. E, logicamente, o microfone captava apenas alguns ecos do que nós gritávamos no palco.

A peça foi transcorrendo, aos atropelos. O povo das primeiras “filas” ria muito, principalmente do Seu Roberto usando sutiã de enchimento e interpretando a Dona Cinturão. Essas risadas me faziam crer que, ora, nem tudo estava perdido, afinal.

Até que, no meio da cena em que as três são assaltadas, a gente escuta um zumzumzumzum, e enxerga, lá longe, o deslocamento de uma placa tectônica de público. Eu e Amable estávamos abraçadas, enquanto a Larissinha e o Ives faziam graça do outro lado do palco.  Nós duas assistimos, estupefatas, ao estouro da platéia.

Amable – Eles tão indo embora?

Eva – Eles tão…indo pra lá. (Olhamos na direção do público) Tão distribuindo cachorro quente lá!

Amable – Durante a peça, tão dando kikão. E eles estão…indo embora!

Foi horrível. Levamos a peça adiante na marra, gritando na direção do microfone que a Lyvia, heróica, continuava segurando. Ainda não tínhamos experiência de teatro suficiente pra saber como acelerar a peça.

A peça terminou, Maria Xereta encontra o pai (vocês tinham alguma dúvida?), e nós três, exaustas, fomos para o camarim que nos arrumaram, uma salinha do centro paroquial. Eu comecei a chorar de nervoso (ai, meus 16 anos emotivos), decepcionada. A Lyvia veio me chacoalhar. Disse que o que nós tínhamos vivido não era um fracasso, e sim uma aula de teatro. “Uma aula, Eva, uma aula!”, ela dizia com a palavra em negrito mesmo. E disse que nós três, provavelmente, éramos as órfãs mais emperiquitadas do orfanato Bom Jesus .

E éramos mesmo. A Maria Xereta se vestia de vermelho e rosa, a Júlia Sapeca de Azul e verde, a Ana Banana, como vocês devem imaginar, de amarelo. Tínhamos uma verba no caixa do grupo (como eu disse, tempos de fartura), que foi suficiente pra comprar umas bijuterias bem coloridas, xuquinhas de cabelo, meias coloridas.   A gente começou a rir, e comemos x-mico com refrigerante.

E foi aí que entraram três meninas, que com certeza tinham menos de seis anos, com uma caneta e uns pedaços de papel. Vieram pedir nosso autógrafo, pois elas tinham ficado vendo a peça até o fim, e queriam um autógrafo da Ana Banana.  Só isso valeu toda a apresentação, pra nós.

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