Tags

, , , , , , , , , ,

A série Som e fúria está em exibição pela Globo. Uma série dirigida pelo Fernando Cidade-de-Deus Meirelles. Uma série que fala dos bastidores de montagem teatral, e dia-a-dia dos atores e diretores e
toda a equipe por trás. Uma série de tv que conta com um elenco cheio de atores excelentes (de televisão e teatro), com tratamento de cinema. Eu preciso falar de Som e Fúria.

Começo falando das chamadas de Som & Fúria. Eu já me interessei quando vi que o tema da série era teatro. Quando escutei a música feita pela dupla Tangos e Tragédias, eu comecei a rir.

“Shakespeare escreveu/atores vão encenar/como precisava um canal/a Globo vai apresentar!

Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!/Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!”

Isso é TÃO engraçado. Sou só eu quem acho? Em uma chamada de uma série de TV fazer piada com a própria televisionação (existe uma palavra pra isso?) da dramaturgia? “Precisávamos de um canal pra exibir nosso trabalho para o Brasil todo, mas o que queremos mesmo é fazer teatro, viu?”

(Quem trabalha com teatro sabe que rola uma rixa com outras formas de arte – em especial a TV, claro,  “a grande inimiga, deformadora do público, rasa, comercial, força do mal”. Não vou debater isso agora. Fica o registro que o teatro é local, e a TV é global (com todos os trocadilhos que vocês puderem imaginar). Grupos de teatro têm mais possibilidades de regionalizar a coisa, fazer referências ao cotidiano e cultura de seu lugar. A TV necessariamente centraliza tudo, e por isso temos uma novela no Leblon, seguida por outra em Copacabana, depois uma falando de uma favela carioca que tem uma escola de samba, uma no interior de São Paulo (pra variar um pouquinho), seguida por uma na conexão Lapa/Índia. E isso não é necessariamente ruim – apenas acontece. O grande centro produtor de teledramaturgia do Brasil (claro que estou falando do PROJAC) FICA NO RIO, ora essa. Os profissionais são de lá ou moram lá; as locações são lá; a centralização é reflexo disso. Eu, francamente, não acredito no DiscursoDoContra que diz que a Globo pretende uniformizar o Brasil, tranformando-nos em uma nação RiodeJaneirocêntrica, e é por isso que ela não exibe os jogos de São Raimundo (AM) X Payssandu (PA), e é por isso que não temos uma novela se passando nas ruas de Boa Vista. Ora, tenhamos um pouco de racionalidade: a Globo é apenas uma empresa, que precisa gerar dividendos, e precisa de bons resultados junto à maior parte do público. Eu não consigo ver a Globo como uma força do mal. E para aqueles que dizem que a Globo é um lixo, eu gostaria de fazer uma pergunta: vocês acham mesmo que a TV do Bispo ou a TV do Baú são melhores e devem assumir a liderança na tv aberta? Mas, eu disse que não iria debater isso agora. :D)

Terça, assisti ao primeiro episódio de Som & Fúria. Ah, caras, é tão maravilhoso quando voce se sente PARTE de algo.

O drama da companhia do Dante Viana, interpretado por Felipe Camargo (companhia que ensaia no Teatro Sans Argent, hahaha), que tem que lidar com lâmpadas incendiando-se e aluguel atrasado, me parece tão familiar. A companhia que não tem lugar adequado pra ensaiar, que não tem dinheiro, que precisa da bilheteria para pagar as contas. Podia ser a minha.

E também o drama da companhia do Estado, que ensaia no Teatro Municipal de São Paulo. Nessa hora, eu (que já tive o privilégio de me apresentar no Teatro Amazonas), também me identifiquei. Gostei particularmente da Ellen (Andréa Beltrão, ótima), no papel da atriz experiente e dada a estrelismos. Uma fala que eu adorei: “Olha, eu não estou querendo dizer que sou melhor que ninguém, tá bom, com licença, por favor, obrigada, mas digamos que, Sonhos de uma noite de Verão, segundo ato, as invenções do ciúme, Titânia, a Rainha das Fadas falando, eu acho que neste momento, ao menos neste momento, eu SOU a pessoa mais importante em cena, e o público não pode me ver nem me ouvir porque eu estou de COSTAS!”

(Alguns diretores dizem que a tal proibição dizendo que o ator nunca deve ficar de costas para o público está defasada. Hoje em dia, o ator poderia ficar de costas em cena, dependendo da intenção do diretor, sabe? Eu nao sei se concordo. Ainda acho que, na maioria das produções, um ator de costas prejudica mais do que ajuda… E na série, foi exatamente o que aconteceu!)

Além disso, foi um prazer enorme ver coisinhas sobre as quais eu escrevi aqui no Camarim pparecendo nos episódios. Quando a Ellen está no camarim se maquiando, e vai aquecendo a voz: Si, fu, xi, pá. Quando o Oliveira (Pedro Paulo Rangel, misturando escárnio com cansaço, tristeza e irreverência, excelente) passa com as atrizes e os atores desejando “Boa sorte, Merda, essas coisas”.

Ou no quarto episódio, de sexta. Uma piada que pode ter passado batida para quem não sabe jargão de teatro. Dante (Felipe Camargo, de quem eu ainda não consegui decidir se gosto ou não) pergunta se o ensaio ainda não começou por causa da Elen. Ela responde, escondida atrás das cadeiras, lá no final da platéia: “Eu tô aqui.” Ele a convida pra chegar mas perto. Ela diz que está bem ali mesmo, que prefere ficar ali. E ele: “Então PROJETA!”

Outras piadas são mais sutis. O fato de o principal crítico se chamar Bárbaro (numa citação claríssima à Barbara Heliodora); a Elen nunca saber se deve entrar pela esquerda ou pela direita (exatamente como Marieta Severo, grande amiga da Andréa Beltrão); e a Ana (Cecília Homem de Mello, que eu não conhecia e está perfeita!), a secretária da companhia, sempre dando umas indiretas sobre o mundo artístico. Quando Dante perguntou: “o que eu devo falar na entrevista coletiva?” ela respondeu: “Que tal a verdade? A gente anda precisando de inovação por aqui.”

No mais, Daniel de Oliveira muito bem, Maria Flor encantadora; Gero Camilo ÓTIMO, tende a roubar a cena; e os caras do Telecurso, né. Eu fiquei tão feliz quando vi os dois caras do telecurso, servindo como crítica interna, dos próprios colegas de elenco. Aparentemente, eles formam um casal.

No mais, um horário melhor do que o de outras minisséries, que nos concede a benção de ficar três semanas sem o horroroso Toma Lá, dá cá. Mas às quartas, fica difícil segurar o sono. Eu perdi o episódio de quarta: dormi aos quinze do segundo tempo daquele jogo insuportável, e acordei assustada, com o controle remoto na mão, com a tela dividida ao meio, mostrando as cenas do capítulo seguinte. Ai, ódio.

Anúncios