Tags

, , , , , , , , , , , , ,

Estou morrendo de saudade de Som & Fúria. Como a Luciana disse (em um post que eu não posso lincar senão destrói meu post, e eu, burra, não sei consertar), é a melhor coisa da TV em 2009 – muito mais que Maysa.

Foram três semanas que passei em expectativa. Nas segundas, eu ia dormir pensando: “Amanhã tem Som & Fúria”. Às terças, eu ia trabalhar feliz: “Hoje tem Som & Fúria”. Às quartas, eu me aborrecia com o Futebol: “Droga, estou morrendo de sono e esses pernas-de-pau ficam atrasando o início de Som & Fúria!” Às quintas, eu trocava o DVD no gravador, para não correr o risco de ficar sem gravar nenhum pedacinho de Som & Fúria. Às sextas, eu apertava o stop melancólica, pensando que ainda faltavam três dias inteirinhos para continuar a história…

Sexta passada, eu apertei o stop muito mais melancólica. Porque era o último capítulo. Eu não poderia mais acompanhar os conflitos de direção do Dante, o nervosismo da Ana (que não era secretária, era diretora administrativa!), os engraçadíssimos lances do Henrique (Dan Stulbach, que roubou a cena todas as vezes, tornando-se meu favorito).

E, mais que tudo, não veria mais Shakespeare passando na TV. Essa série teve momentos sublimes, brilhantes mesmo. Ver a Débora Falabella (de quem continuo com antipatia, porque todas as personagens dela saem Lisbelas) e o Leonardo Miggiorin (bonzinho no papel de gay que transa com mulher) dizendo as falas de Romeu e Julieta (que todo mundo DIZ que conhece, mas pouca gente leu de verdade). Eu (que nunca li de verdade a peça), me surpreendi. Com a simplicidade das palavras, com a fácil compreensão do significado, com a passionalidade dos gestos. Como Romeu e Julieta é universal! Por isso que não cessamos de ver Romeu e Julieta em milhares de versões, no cinema, nas novelas, noslivros, e todo ano de um jeito diferente na Malhação. Amor impossível, amor proibido, amor com dificuldades.

Eu também gostei da delicadíssima participação do Paulo Goulart. Para fazer o contraponto com o empresário que patrocinou Sonho de uma Noite de Verão no primeiro capítulo, fazendo o constragedor discurso “Eu vejo Shakespeare como o pônei no telhado”, o Paulo Goulart (não sei o nome do personagem) criou um momento muito bonito, do empresário que, além de patrocinar a peça, tem uma história com a peça – Romeu e Julieta é a favorita da esposa dele, que está no hospital e não pôde se fazer presente à encenação. Derrubou todo mundo no teatro – e, obviamente, derrubou a Eva, essa telespectadora teatral, que tem o coração fraquinho pra histórias de amor difícil. A Ellen chorava nos bastidores: “Eu odeio essa peça. Porque na vida real ninguém consegue amar assim. E como não conseguimos amar desse jeito, achamos que não sabemos amar…” E o Dante: “A peça é igualzinha à vida real. Eles se apaixonam, tudo dá errado, e no fim dá merda.”

Quando Jacques (Daniel de Oliveira) fez o solilóquio de Hamlet, o mais famoso, o “Ser ou não ser”, aquele trecho que todo mundo DIZ que sabe, mas que na verdade pouquíssima gente já leu ou escutou por inteiro, eu fiquei de queixo caído. Primeiro: “Ué, o crânio não é nessa hora, não?” Segundo: “Puxa, é mais fácil de entender do que eu imaginei.” Terceiro: “Ai, caramba, tem milhares de pessoas assistindo isso, é Hamlet! Shakespeare Superstar!”

Outro momento excelente foi na montagem de Hamlet. Era a última apresentação da temporada, um monte de crianças de escola na platéia, jogando aviõezinhos nos Caras do Telecurso (Wandi Doratioto e Arthur Kohl, cujo nome jamais esquecerei :D). Elenco meio desmotivado. Dante, o diretor mais cricri de todos os tempos, entra no camarim da Ellen, a Andréa mais Beltrão de todos os tempos, e pergunta qual a motivação da personagem Gertrudes quando assiste a morte de Ofélia e permite que ela se afogue. Ela, displicente, responde: “Sei lá, eu não queria molhar o meu vestido.” Após um pouco de pressão do diretor, ela elabora mais: “A Ofélia estava sofrendo, louca, e a morte traria paz a ela.” O Dante explica melhor: “A Ofélia se matou. Você vai mentir dizendo que ela se afogou para que ela possa ter um enterro cristão. Deixa isso bem claro na cena.” A Ellen revira os olhos: “Ah, Dante, por favor, hoje é a última apresentação!” E ele: “Então, é a última chance de você fazer bem a cena.” E ela entrou no palco; e arrebentou.

Agora, toda vez que eu entrar em cena, eu vou pensar nisso: que pode ser minha última chance de fazer bem a cena.

Ai, que saudade de Som & Fúria.

Anúncios