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Quando fiz um curso livre de Interpretação Teatral no SESC – AM, tive como professora a Selma Vale. (Sortuda, eu.) Entre outras muitas coisas importantes que ela disse e que eu guardo no coração e no caderninho, vou destacar uma: “admite-se que o ator necessite de formação técnica de segundo grau, e o diretor necessite de curso superior.” Ela não disse que isto era uma regra, ou que havia um regulamento sobre o assunto, mas normalmente é assim.

(Vai ver que é por isso que os pais não querem que a gente seja ator. É como ser laboratorista ou metalúrgico: você não tem diploma, anel, e sempre vai ter um chefe. Atenção, essa foi uma frase irônica. Eu sei que cursos técnicos também têm anel.)

Bem, eu sou formada em Administração, e tenho gosto pela Academia: os eventos científicos, o mundo das publicações, a escalada mestrado/doutorado/PhD, tudo me encanta. E, como vocês já sabem, tenho tesão por Teatro e interpretação.

Juntar as duas coisas, Teatro e formação acadêmica, é muito fascinante pra mim. Foi por isso que eu me inscrevi no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas – UEA, cujas provas acontecem no final do ano.

(Corta pra 2002: eu e minha amiga Keiteanne assistindo a uma palestra de um professor da UFAM cujo nome não lembro e cujo rosto esqueci. Ele explicava que a UA, Universidade do Amazonas, passava a se chamar UFAM, Universidade Federal do Amazonas, e outras coisas do processo de seleção. Éramos muito desembaraçadas e atrevidas, e fomos perguntar a ele se a “nova” UFAM teria curso de Teatro. Ele nos disse que o curso de Artes tinha duas habilitações, Artes Plasticas ou Música, e que a formação em Teatro era uma possibilidade muito próxima. Começamos a fazer planos de estudarmos juntas e nos formarmos juntas, abrindo um dia uma companhia e, claro, ganhando o Oscar brasileiro que a Fernanda Montenegro não conseguiu. Adolescentes não são humildes ou modestas.

Qual não foi nossa decepção quando vimos que nem a UFAM nem a UEA ofereceriam o nosso desejado curso de Artes Cênicas naquele ano, o aflitivo ano do vestibular. Acabou que eu passei em Administração, ela em Pedagogia – ambas na UFAM, ambas pelo processo contínuo. Fim do flashback.)

Quando a Reitora da UEA, Dra Marilene, deu uma entrevista dizendo que neste ano o vestibular selecionaria também para o curso de Teatro, o único novo curso de graduação da UEA na capital este ano, houve uma histeria entre os meus contatos. “Eva, Eva, já tá sabendo?”.  Eu estremeci. Era a chance que eu desejei durante anos. E eu sempre disse que não me dedicava mais ao teatro porque, enfim, eu teria de me mudar pra fazer o tal curso. E, após me formar, sempre enchi a boca pra dizer que JAMAIS faria graduação novamente, por não ter paciência pra entrar em uma sala de aula tendo como colegas garotinhos de 17 e mocinhas de 18.

Agora eu não tenho mais desculpa. E não posso mais encher a boca. Estou inscrita, de novo, após sete anos, no vestibular. Sei lá quantos mais vão se inscrever. São 40 vagas. Eu só preciso de uma!

Quem for de rezar, reze. Quem for do Teatro, inscreva-se, até sexta-feira! A inscrição do vestibular da UEA custa trinta reais. Só trinta reaizinhos. E eles ainda usam a nota do ENEM, se ela ajudar, como 20% da nota da prova de conhecimentos gerais.

Tem uma porção de regrinhas de cota: estudar em escolas públicas do interior, escolas públicas da capital, ser de fora ou do Amazonas, pertencer ou não a etnias indígenas, e, é claro, eu estou na regra mais restrita: já tenho curso superior, diploma, anel, profissão: o número de vagas que eu disputo é menor. Dane-se. Vou tentar. Não posso não tentar.

Aquela moça de 17 anos espera isso de mim.

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