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Eu penso que a TV, o cinema e o teatro são meios igualmente legítimos para o ator exercer duas arte. Diferentes, é certo, e esbarrando-se de vez em quando em exercícios interessantes. Lembro-me de Hoje é Dia de Maria, maravilhosa série brasileira que levou teatro, circo, folclore e poesia pra frente das câmeras de TV. Também dos filmes do Kenneth Brannagh (escreve-se assim?), que filmou obras de Shakespeare (seu Hamlet é a versão COMPLETA, com todas as palavras do Shakespeare. Dura mais de quatro horas!). Filmes baseados em peças de teatro tem um saborzinho que pode ser fácil de identificar: Divã, filme brasileiro com a Lília Cabral, e Closer – Perto Demais, aquele filme com o Jude Law e o Clive Bonitão Owen e a Natalie Portman e a Julia Roberts, são bons exemplos. Percebemos o foco no que se FALA e não no que se FAZ, a pouca mudança de cenário (longos diálogos no mesmo ambiente), poucos personagens…

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Dito isto, devo dizer que a TV me decepcionou imensamente neste fim de ano. A TV Globo, que normalmente apresenta bons especiais de dramaturgia nesta época, foi de uma pobreza, uma superficialidade absurdas.

Eu esperei muito do especial “Dó-Ré-Mi-Fábrica”. Meu Deus, Lázaro Ramos, um dos melhores atores do país. João Falcão, o diretor de “A Máquina”, que revelou Lázaro, Wagner Moura… Tinha como dar errado?

Deu. Horrivelmente errado. O roteiro tinha uma proposta muito interessante :uma fábrica mágica, que inventou todos os instrumentos musicais do mundo, vivendo uma crise de poder por ser dirigida por dois irmãos BEM diferentes. Mas escorregou feio quando colocou uma história paralela (piegas até dizer chega), de uma família pobre que vive num lixão, e tem um menininho nordestino que tem sonhos de ser músico e artista e cantor, e os sonhos são solapados pela cruel realidade da vida dura, e ó meu Deus ele foge no Trenzinho do Caipira  (SÉRIO) em busca de seu ideal e encontra um explorador de crianças talentosas (Dois Filhos de Francisco feelings) e chega até a fábrica mágica onde ajuda a salvar o empreendimento da falência. Ufa!

A interpretação do Làzaro não foi adequada pra TV, nem parecia com bom teatro. Ficou parecendo teatro infantil da igreja do bairro. O menino que interpretou o Tom, nossa. Tem uma longa estrada pela frente. Não interpretou bem, nem cantou bem (aliás, cantou muito mal e gritando). Pena, porque o Maicom é de Rondônia, e eu realmente queria que ele arrasasse (eu sempre torço por quem é do Norte).Li na internet que ele foi escolhido por um vídeo no Youtube e que é um ótimo instrumentista. E fica uma pergunta solta no ar: se ele é bom TOCANDO, porque não deixaram que ele tocasse nenhum instrumento?

Os arranjos musicais estavam pobres e irritantes, o que me deixa triste quando penso que já tivemos especiais como Pirlimpimpim, Plunct-Plact Zum, Balão Mágico, Arca de Noé…

Um horror, uma decepção, uma pobreza. Quem se saiu mellhor foi a Natália Dill, no papel da assistente da Fábrica, Viola. Inclusive, foi quem cantou melhor, tendo o melhor número musical do especial: “Bem vindos a Dó-Ré-Mi-Fábrica! Inventamos instrumentos desde o tempo do ronca…do Bandolim de Jacob do Bandolim, até o pandeiro de Jackson do Pandeiro!”

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No dia seguinte, véspera de Natal, passou o especial da Xuxa. Eu devo admitir que sempre assisto ao especial dela no fim do ano, porque a) aparentemente, ela gosta de Natal tanto quanto eu, e sempre coloca luzinhas, papai noel, mágica, musiquinhas de Natal b) lembro-me da minha infancia, que a única coisa divertida que tinha pra fazer na véspera de Natal era ver TV e esperar a ceia e c) todo mundo merece uma segunda chance.

Fiquei passada. A Xuxa conseguiria fazer arte – grande arte – se simplesmente reconhecesse que não sabe cantar nem interpretar e se retirasse da frente da câmera, tornando uma produtora poderosíssima com foco no público infantil. Nossa, se ela não estivesse no especial, ele seria bem bonzinho. Figurinos lindos, cenários muito bem feitos, idéia divertida (uma terra em que é sempre Natal tem sua rotina quebrada)…Cissa Guimarães fez uma Mamãe Noel muito honesta, com bordão excelente (Uôu, Uôu, Uôu), Eri Johnson estava mesmo engraçado, os detetives estavam no tom certo pra crianças assistirem e gostarem. Porém, ah, porém, a Xuxa tinha a maioria das falas. E ainda cantava (sic) entre uma cena e outra. Assim não há elenco, figurino, produção que segure.

Não sei dizer se o problema da Xuxa é falta de talento ou se nenhum diretor tem coragem de ser mais firme com ela, extraindo mais. Afinal, ela é mesmo a rainha, tem a grana e a marca, é a dona da bola. Se ela te chamasse pra dirigir um projeto dela, você faria com que ela ensaiasse exaustivamente, regravasse até ficar perfeito, fizesse uns laboratórios pra pegar melhor o jeitinho da coisa? Eu não faria nada disso!

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