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No teatro, o figurino deve ajudar a contar a história. Auxiliar o ator a compor o personagem. Ser fácil de tirar e vestir. Exprimir uma identidade visual e estética. Correponder à idéia do diretor. E (claro) custar pouco.

A realidade das montagens teatrais brasileiras costuma reforçar o “custar pouco”. A maioria esmagadora das montagens no Brasil não entram em temporada – o que quer dizer que uma peça é produzida, ensaiada, sonorizada e VESTIDA para ser apresentada duas ou três vezes, em um final de semana ou dois, em um festival ou mostra de teatro, em uma data especial (Natal, Paixão de Cristo, vocês sabem muito bem).

Meu grupo de teatro (que passa por uma grave crise de elenco e de frequência) está montando (não sem sacrifícios) uma peça que tem cenas passadas na atualidade e em 1850, numa fazenda do interior de Minas Gerais cheia de fantasmas. E eu fiquei de figurinista. Tenho de pesquisar, tenho de conversar com o diretor sobre as idéias dele. Tenho que observar a interpretação dos atores e ver como é o personagem que eles estão construindo, para que a roupa expresse isso. Tenho que bater perna escolhendo os tecidos mais furrequinhas e que sejam vendidos a quilo, PORÉM que sejam vistosos ainda assim.  E tenho que pensar nas peças de roupa, né. É muito difícil, muito importante (o diretor valoriza bastante a verossimilhança) e eu não tenho experiência nem fiz cursos sobre o assunto.

Eu preciso dizer que, neste trabalho de fazer as roupas aparecerem no papel, eu não seria NINGUÉM se não fosse o Alex Lima.

O Alex tem uma facilidade de entender as minhas viagens na maionese que me impressiona. Eu falo, falo, falo, mostro uma foto aqui, um texto ali, pego livros na biblioteca, falo, falo, falo. E ele me aparece com o modelo que eu imaginei – mas não tenho capacidade de desenhar.

Antonia - Cena 2

Eu digo pra ele que se o Brasil fosse um país sério, ele ganharia dinheiro com isso. Quando eu assisti ao filme As Brumas de Avalon (não assistam, leiam os quatro livros!), nos extras do DVD tinha os storyboards do filme. Storyboards são – ora – desenhos das cenas, que ajudam a pensar no ângulo da câmera, posição de aparelhos para que não apareçam na filmagem, recursos necessários, acessórios e roupas. E alguém tem que desenhá-los, certo?

Pérola - Cena 2

Em outro filme, O mundo em duas voltas – a história da família Schürmann, os desenhos ocupam papel primordial. O filme é meio que um documentário, explicando como foi a viagem de volta ao mundo que a família de navegadores fez para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil. E o roteiro da viagem deles foi elaborado para seguir o roteiro da viagem de Fernão de Magalhães. E um jeito que o diretor do filme – David Schürmann, filho mais velho – encontrou para tornar a narrativa interessante foi traçar um paralelo da viagem de Fernão de Magalhães com a da família. Ele diz nos extras (eu AMO os extras dos DVD´s!) que pensou em fazer as cenas de época encenadas, com atores e tudo, mas isso ia gerar um custo estratosférico. Então, que fizeram? Chamaram um ilustrador, Laurent Cardon, francês radicado no Brasil, pra fazer as cenas de época em gravuras. O resultado ficou lindo, e muito eficaz.

Mas eu falava do Alex Lima. Ele não fez as gravuras de nenhum documentário, não desenhou storyboards para superproduções de Hollywood. Mas está fazendo croquis muito bons e adequados para a nossa peça.

Negreiros - Cena 2

O que vocês acham? Gostaram?

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