Eu mando eles ficarem na ponta dos pés, eles começam a dizer que dói. Eu digo para eles se alongarem com cuidado, para não machucar ou distender algum músculo, eles se contorcem como minhoquinhas.

Eu digo para que eles se concentrem, evitem falar, e eles cutucam o amigo do lado. Riem o tempo todo, histericamente. Eu peço silêncio, eles me olham de lado e continuam rindo, pois – ora, ora – eu sou ridícula.

Eu explico como é o corpo em plano baixo, e eles me chamam de aranha. Sugiro que façam movimentos mais rápidos, e eles imitam um ataque epiléptico. Puxam o cabelo de meu parceiro, batem nas paredes, conversam sem parar ao mesmo tempo que realizam momvimentos difíceis.

Eu e meus colegas ministrantes da oficina variamos as intenções: suplicamos, depois imploramos, depois ralhamos, depois pedimos por favor, depois pegamos o menino pelo ombro e dizemos “PÁRA AGORA com isso”.
Rimos também, porque para nós eles são transparentes como bolhas de sabão, e nós conseguimos enxergar todas as relações que eles pensam ser segredo: a menina que gosta do melhor amigo, e por não saber lidar com isso, dá tapas violentos nas costas dele (fico pensando se um dia os tapas serão beijos!); o rapaz que é tão tímido e envergonhado que ri sem parar e nos fala, esperando que acreditemos “não consigo, tia, não consigo ficar sem rir, não consigo me alongar, não consigo obedecer” – no fundo, ele é o que mais tem vontade de fazer teatro; a líder natural que tenta ser mãe dos colegas, berrando para que eles nos obedeçam “fica quieto, Fulano, te manca”.

Sinto as energias deles vindo pra mim, numa escaldante manhã de sábado de feriadão, quando eles poderiam estar em casa, se quisessem: não vale nota! Sinto-me perdida, fora de controle, frustrada, animada, esperançosa, tudo ao mesmo tempo.

E, ainda assim, eles me obedecem. Fazem os exercícios, se alongam, pulam na ponta do pé, e viram pra mim e perguntam: “Plano médio pode ser assim, Tia Eva?”

Amor é assim mesmo, complicado.

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