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“Sinto que meu coração é um sol, e dentro dele habita outro sol muito maior, querendo irradiar-se do meu peito.”
São Francisco de Assis

Desde o segundo período aguardávamos o momento de cursar a disciplina Interpretação I, convidada para ministrar a disciplina de Interpretação I. Melissa.

Ela estava ensinando pra nos umas técnicas de mimese corpórea, ainda estamos no início, nem sei conceituar.

Ela passou quatro ações do Tchécov para fazermos. A primeira é moldar: é como se o corpo estivesse mergulhado no barro, e a energia fluia do centro do quadril, e o corpo ia moldando o barro ao redor. A segunda é Flutuar: é como se o ponto entre os olhos fosse “inflável”, e nós estivéssemos imersos na água, flutuando. O terceiro é voar: a energia nasce do meio dos (das?) omoplatas, e os movimentos são de cortar o ar, riscar o céu. A turma tava numa sintonia ótima, nenhuma esbarrão, muita velocidade e movimentos bonitos. Eu estava exaurida, com aquele suor que escorre dentro do olho, molha a gola da camiseta, ensopa o cabelo, sabem? Indo sempre dentro do limite.

Aí ela disse que o quarto movimento é Irradiar. E que é o mais difícil, pois não tem movimento base ou ponto de foco. “É como se o coração irradiasse e saísse pela ponta dos dedos, pelos olhos, e você só consegue ficar na posição do homem vitruviano”.

Eu pensei: “Fodeu, esse não consigo fazer.” Passando mal de suar, comecei a tentar concentrar na irradiação. Sempre tive inveja dos meus amigos artistas/espíritas, que faziam visualizações loucas, flutuavam sobre manaus, atingiam o universo, mergulhavam nos fluidos e coisa assim. Eu sempre fazia uma imaginação do cenário, mas nunca VIVI uma viagem astral, apenas mentalizava imagens, o que é relaxante e gostoso, porém não é máááááágico e tal. E eu não bebo nem “viajo”, né? 😀

Três vezes eu pensei: vou sentar e ficar observando, esse eu não vou conseguir fazer. Quando pensei a terceira vez, olha que loucura, ela falou pro grupo “Segura, segura, não desiste não, tem que tentar!”

E não sei o que foi, eu imaginei meu coração ficando incandescente, e de repente saiu uma coisa de dentro de mim, que, PUTZ, irradiava pros braços, eu não conseguia mais deixar os braços penderem relaxados. Eles foram esticando, como se voooooshhhhh jorrasse uma coisa do meu coração e NOSSA eu fiquei na posição do homem vitruviano e eu irradiava, os olhos irradiavam, eu estava tão feliz e me movendo como se fosse mestra naquilo, sem esbarrar em ninguém, como uma dança de espantalhozinhos felizes.

Quando o exercício parou, eu sentei no chão e chorei tanto que o pessoal veio perguntar se eu tava passando bem.

Eu esperava sentir essa plenitude há doze anos, quando entrei no grupo de teatro. E nem lembrava mais que era isso que eu queria.

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