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Jorge Bandeira, além de ser uma pessoa muito rara e um dos grandes teatrólogos do Amazonas, fez uma opção pela sinceridade em seu fazer artístico.
Homem da Renascença, Bandeira escreve, produz, dirige, atua e divulga seus espetáculos. À frente do Éden Teatro, Bandeira utiliza-se das redes sociais com criatividade para, no jargão do marketing, “fidelizar” o público.
Funciona. Sem patrocínio do governo por opção consciente e crítica, habitualmente ocupando espaços intimistas e de arquitetura peculiar que não suportam público maior que trinta pessoas, como o Teatro Porão do Casarão de Ideias ou Espaço Cultural e Sebo O Alienígena (gerido pelo próprio Bandeira), cada apresentação do Éden Teatro é quase uma reunião de cúpula, uma camarilla composta por pessoas que amam tanto a arte quanto os artistas que a realizam.
Não foi diferente com a performance “Memento Mori – A matança dos periquitos”. Realizada nos dias 8, 9 e 10 de janeiro, no Lugar Uma de Artes, localizado “abaixo da R. Joaquim Nabuco”. Petit-comité. Éramos seis assistindo, dois atuando e um na técnica.
Antes mesmo de ser liberada a entrada do público, ouvíamos gravações de cantos de pássaros. Entramos e estavam os dois intérpretes sendo velados. Os corpos verde-e-amarelos estendidos no chão, usando máscaras cirúrgicas que só aumentavam a lugubridade da coisa: castiçais fúnebres, a luz de velas e a projeção de imagens de corpos de aves, também verde-e-amarelos, também estendidos no chão.
(Quem não é de Manaus talvez não tenha acompanhado o PeriquitoGate. Há alguns anos, um condomínio de alto padrão cobriu as copas das palmeiras imperiais de seu jardim frontal, para impedir que os periquitos pousassem e se aninhassem nelas, pois eles bicavam as palmeiras e elas feneciam. Aparentemente, eles faziam muito barulho e sujeira e isso é intolerável – apesar de passarem na frente do mesmo condomínio MILHARES de carros que também fazem barulho e sujeira, mas aparentemente os carros são mais interessantes. Pois bem, a tensão atingiu o pico quando, em novembro, apareceram mais de duzentos periquitos mortos exatamente/coincidentemente/casualmente/misteriosamente no mesmo perímetro do referido condomínio. Surgiram teorias, especulações, imagens de câmeras de segurança, cogitou-se até suicídio coletivo das aves.)

Esse, o ponto de partida da performance. Enquanto Jorge Bandeira e Maysa desenvolviam movimentos que mimetizavam os movimentos das aves (Maysa foi excepcionalmente bem, até seu olhar era o de uma ave), a projeção nos provocava, perguntando se era lícito sentir “Pena de ave”, e dizendo que duzentos periquitos “não davam nem trinta quilos”, mostrando várias fotografias tiradas no dia do Periquitocídio. Uma, em particular, mostrava o corpo de um periquito na sarjeta e em segundo plano, um automóvel passando, com a legenda: “Carro pode”.
O impressionante trabalho de edição de som resultou não em uma sonoplastia, mas sim em ambientação sonora que mesclava cantos de aves, ora melodiosos ora angustiantes, ruídos de tráfego e estática, complementando e em alguns momentos conduzindo a cena.

Esta performance em três apresentações foi, até onde sei, a única leitura artística cênica sobre o episódio. Houve charges e pinturas, manifestações em protesto e, mais recentemente, a mudança do nome da Av. Ephigênio Salles para Avenida dos PÁSSAROS; porém, acredito que a performance do Éden Teatro tem um lugar reservado para ela, nesta cidade estranha que fica incrustada na Amazônia e vive lutando para escapar da natureza. Jorge Bandeira cumpre, mais uma vez, sua missão auto-imposta de agitador cultural.

Não sobrou nada da performance: cenário não havia, figurino tampouco, fotos ou filmagens não eram permitidas. No nosso contexto tecnológico, há os arquivos das projeções e da ambientação sonora, que provavelmente em cinco anos não poderão ser abertos por nenhum software e se perderão. Eu estava lá. E para cada um, fica apenas a vivência daqueles 45 minutos.

Bem disse Quintana: “Eles passarão. Eu passarinho!”

Eva Miranda
11.Janeiro.2015

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