Mãe de Laboratório – Guest Post de Márcia Vinagre

Apesar do blog parado, a Márcia entrou em contato comigo pra publicar um texto dela, e eu gostei muito da reflexão que ela trouxe. Fiquem com a Márcia Vinagre, atriz, apresentadora e bacharel em Teatro pela UEA.

Laboratório – segundo o dicionário Aurélio – Lugar destinado ao estudo experimental de qualquer ramo da ciência, ou à aplicação dos conhecimentos científicos com objetivo prático.

No teatro, no cinema, na televisão o entendimento de laboratório não foge à regra etimológica da palavra em questão.

No teatro o laboratório é inserido como forma de aprendizagem e apreensão do entendimento das personagens no seu caráter estético, emocional e psicológico, experimentações através de exercicios propostos por diretores e/ou atores embasados em teóricos da área teatral potencializam a dinâmica e proporcionam a objetividade da atividade oferecida.

Enquanto acadêmica do curso de Teatro na UEA (Universidade do Estado do Amazonas) pude experimentar formas diversas de exercicios aplicados em nossos laboratórios para atingir a verossimilhança com a personagem a ser interpretada e de acordo com o teórico e a linguagem estudada no vigente momento, declaro que apreciei cada momento, cada laboratório, cada tentativa de aproximação dessa personagem.

Mas confesso que agora enquanto finalista do curso, muito me surpreendi, quando um novo professor passou a fazer parte do quadro de docentes do curso de teatro, e trouxe em sua bagagem, fórmulas surpreendentes de laboratórios, e através de uma didática opressora influência alunos sem muita experiência no teatro e muito menos na vida a corroborarem com ele e com as suas práticas.

Durante uma aula ministrada pelo tal professor, surge uma inquietação de um colega finalista, assim como eu, que em sua defesa de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em direção não consegue, mesmo através de exercicios e jogos propostos nos ensaios, levar para o corpo das suas atrizes a opressão (já que o contexto da sua montagem cênica está voltado para o tráfico humano). Com maestria o professor sugere ao colega que fizesse um laboratório com suas atrizes enquanto diretor, e que neste jogo ele trancasse suas atrizes em uma sala das nove da manhã às nove da noite, e que elas fossem humilhadas por ele (o diretor), e para alcançar tal objetividade (que seria a humilhação das atrizes), elas teriam que ficar sem beber água, sem comer e que teriam um único momento para irem ao banheiro e depois se as mesmas sentissem necessidade fisiológica que fizessem ali mesmo na sala e na frente das outras colegas de processo.

Não preciso nem mencionar que aquela referencia sobre laboratório me deixou entorpecida, mas por sorte ou consciência o colega decidiu não aplicar tal laboratório, indo contra as argumentações que o professor havia sugerido.

Esta foi a primeira experiência que tive em caráter direto com o professor recentemente contrato da UEA. Mas para minha surpresa, (pasmem, eu ainda me surpreendo com as suas metodologias aplicadas a laboratórios) eu me deparo com uma colega, também finalista, com um boneco nos braços passeando pelos corredores do prédio da ESAT (Escola Superior de Artes e Turismo), ela estava fazendo um laboratório proposto pelo seu orientador, e adivinhem quem era esse orientador? Espertinhos! Isso mesmo, o professor recém-chegado de São Paulo, e neste laboratório a minha colega de turma teria que ficar com este boneco, cuidar deste boneco, alimentar este boneco como se fosse seu próprio filho, ela tentou… Salvo que em alguns momentos o seu boneco, (ops! Perdão!), seu filho ficava jogado num canto da sala enquanto a mãe assistia às aulas e em momentos que a mesma foi ré confessa que não alimentava seu filho e que quando chegava a sua casa jogava-o no canto e ia dormir porque estava muito cansada… Enfim, acredito no fundo do meu coração que ela tentou.

Esta mesma missão foi dada para outra coleguinha, que também teria que cuidar deste boneco como fosse seu filho. Em sala de aula ela parecia ser uma mãe atenciosa, cuidadosa com o seu rebento. Vimos quando a mesma se levantou e com muito cuidado levou o seu bebê a uma cadeira (penso eu, que ela ressignificou o objeto, tornando a cadeira em um berço), a mãe volta ao seu assento e participa da aula, a sua participação foi interrompida pelo choro do seu filho (que é claro, só ela ouviu) e de imediato a mãe corre para acalentar a sua cria. E voltando com este no colo, começa a balbuciar uma musiquinha de ninar (óbvio, atrapalhando a aula) o professor dirige-se à aluna e pergunta “O que está fazendo?” E a aluna vira para o professor com o seu bebê na mão e responde “Psh!” e volta aos seus cuidados de mãe. Ele insiste, agora perguntando “Você fez seus relatórios?” E a mãe de laboratório olha para o professor e responde “Psh!”.

Inconformado o professor arranca o bebê dos seus braços, olha para o boneco por alguns míseros segundos, e como um Deus furioso com poder de ação sem questionamentos, joga o boneco contra a parede provocando furor e espanto aos que ali presenciavam toda cena.

Moral da história: Nem mesmo o professor que foi o propositor do jogo, foi capaz de assimilar a proposta de criação de uma mãe de laboratório, onde a intenção era de levar a esta aluna a verossimilhança de ser genitora. Mas como reproduzir sentimentos que nunca sentimentos? Experiências que nunca vivemos? O fracasso do experimento consolidou-se quando este jogou o boneco na parede e a mãe não reagiu, não reagiu porque ela não tinha um sentimento materno verdadeiro nem no exercício e nem na vida, haja vista que a aluna ainda não é mãe, se a experiência fosse comigo, por ser mãe, eu gritaria “Monstro, você é um monstro. Você matou meu filho!” (dramático eu sei, mas só estaria potencializando o exercício).

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