Cauby! Cauby!Uma Lembrança

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Morar no Rio me deixa com uma sensação que não tem nome. É como um formigamento no músculo cultural.

Eu lembro com bastante clareza de assistir pela tv, lá em Manaus, à entrevista que Jô Soares fez com o Cauby Peixoto, e do (incrível ator) Diogo Vilela entrando caracterizado e cantando “Camarim”. Assim como eu, o Youtube também se lembra.

E não é que agora eu moro no Rio, e o espetáculo volta a ficar em cartaz, e eu vou lá e assisto e posso até dar uma de carioca e dizer “ah, talvez eu volte semana que vem”?

*[Formigamento]*

Após a morte do Cauby, o espetáculo foi remontado. A narrativa foi entregue à personagem de D. Nancy (Sylvia Massari, ótima como sempre, cantando e dançando como uma Broadway baby), secretária e amiga íntima do cantor, que conta para dois estudantes de jornalismo (e para a plateia) a trajetória do cantor. Seu texto faz constante menção à saudade do Cauby, uma saudade que parece ser compartilhada pelo público, que canta baixinho o repertório de canções da era de ouro do Rádio, boleros, sambas e tangos. (Eu também cantei junto, sou dessas.)

Esse formato de musical que faz tanto sucesso aqui no eixo Rio-São Paulo, que se aproxima muito mais da homenagem do que da criação dramatúrgica original, me deixa sempre com a impressão de “faltou alguma coisa”.

Não me entendam mal: são profissionais muito talentosos dando o melhor de si, no palco e fora dele. O Diogo Vilela (que divide a direção e o texto com Flávio Marinho) construiu seu Cauby com fidelidade minuciosa, o elenco brilhante, com vozes cristalinas e dançando com leveza, a direção criativa, o figurino MARAVILHOSO (estamos falando do Cauby, né, gente?), a cenografia detalhista e cheia de truques gostosos (a entrada da barca de Niterói me fez ficar com os olhos cheios d’água, e o “armário” do qual o Cauby “sai” é um toque divertido). Tudo perfeito. E ainda assim, eu continuo com aquela sensação de “faltou alguma coisa”

A impressão que tenho é que assisti um show de música com um fiozinho de dramaturgia costurando os números musicais. Não tem nada de errado nisso, eu sei. Só que eu fico sempre esperando um tipo de trabalho que toque mais fundo meu coração, que me faça gritar “que diferente!”.

Então, a história do rapaz de Niterói que nasceu em uma família de músicos e foi considerado o melhor cantor do Brasil vai acontecendo no palco. A amizade e namoro (inventado pelo seu empresário Deveras) com Ângela Maria, a temporada nos Estados Unidos, o sucesso de “Conceição”, a ascensão da Bossa Nova que tornou o estilo grandiloquente de Cauby datado e o ostracismo nos anos 70 e 80, a entrevista ao Pasquim (ÓTIMA CENA), e o questionamento nunca respondido sobre sua orientação sexual. Entre um trechinho de texto e outro, a sucessão de números musicais, que não é exclusivamente composto pelo repertório de Cauby: há citações à Broadway (I could have danced all night, de My Fair Lady) e também a outros artistas da Era do Rádio, a Orlando Silva (inspiração de Cauby) e à bossa nova. A banda executa a música ao vivo no palco, e todo mundo canta e dança maravilhosamente bem, usando roupas lindas num cenário luxuoso.  *[formigamento]*

Então, é isso: O espetáculo está no Teatro Municipal Carlos Gomes, gerido pela #PrefeituraRio até dia 11 de março de 2018, de quinta a sábado às 19h, e domingo às 18h. Ingressos de R$50 a 80 (inteira), R$25 a R$40 (meia). Classificação 10 anos.

 

 

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